Passeios e excursões · Caviahue
O tear tem sua festa na veranada
Texto: Mónica Pons · Fotos: Eduardo Epifanio
Num cenário de montanhas magnífico, uma festa popular mostra todo ano o artesanato e as habilidades da tradição mapuche e está aberta a quem quiser compartilhá-la.

Os aromas do ambiente pastoril, os trajes dos membros da comunidade e o grande público que acompanha a festa são a essência deste encontro de tradições.
Em Caviahue, o lugarejo de Cajón Chico é sinônimo da “veranada” do povo mapuche, a pastagem de verão. É o cenário onde transcorre sua vida nos tempos de calor e também onde acontece a Festa do Tear, no fim de cada verão.
É um vale amplo, protegido por montanhas laterais, com pequenas lagoas e grandes rochas espalhadas aqui e ali. Vários ranchos, com suas vacas, cavalos e cabritos, foram o cenário ideal para as provas campeiras organizadas para a ocasião.
Tudo começou no sábado bem cedo. O espaço exibia as cores de dia de festa graças ao empenho dos organizadores. As cores da bandeira argentina presidiam o campo de jineteada (a doma tradicional), eixo de todas as atividades, nas bandeiras e nos postes recém-pintados.
Num palanque de transmissão, locutor e payadores (repentistas) tomavam a palavra para animar, para divertir, mas sobretudo para ir dando detalhes da programação.

O desfile inaugural foi impressionante: envoltos numa grande nuvem de poeira, os cavaleiros da comunidade foram entrando no campo com os estandartes das organizações mapuches. Vestiam suas melhores roupas e os cavalos estavam enfeitados com detalhes de couro trançado e prata.
“Desculpem a pouquinha poeira, mas é a presença da paisanada argentina. Matem a vontade de aplaudir!”, disse o locutor. E acrescentou: “Os cachorros, fiéis companheiros do gaúcho, não podiam ficar em casa e vieram para a festa!”.
Os cavaleiros tinham roupas diferentes. Os mais velhos não esqueceram os chapéus de feltro e o facão nas costas, na cintura. Os jovens, mais informais, usavam boinas de feltro ou de tricô de lado e o celular no bolso lateral da bombacha.
Fora do roteiro
Um bando de cabritos apareceu ninguém soube de onde e atravessou, curioso, entre as delegações. Era de supor que fosse o caminho obrigatório do seu trajeto diário, e ninguém se atreveu a contrariá-los.

A primeira disputa foi a escolha do cavalo mais bem “emprendado”, com os melhores arreios. Seguiram-se várias provas crioulas a cavalo, para todas as idades. Mostraram tudo o que fazem no dia a dia: jineteadas, pialadas e montarias sobre o pial, corrida de argolinha etc. Os movimentos de cavalo e cavaleiro eram tão compassados que se fundiam numa só figura.
Fomos até os stands, onde as matras, mantas, faixas e ponchos feitos no tear atraíam os olhares dos visitantes. Admiramos o trabalho minucioso das tecelãs, com várias técnicas. A jovem organizadora da mostra, Lorena Torres, mostrou-se convencida do papel que as mulheres e os jovens têm na comunidade. Junto com a professora de tecelagem Herminia González, elas se comprometeram a divulgar suas tradições, tanto nesse trabalho feminino quanto na língua oral dos mais velhos.
Herminia nos falou das etapas anteriores à tecelagem. Desde a obtenção da lã das próprias ovelhas até a montagem da armação de madeira onde se apoia o tecido, elas fazem tudo sozinhas.
“O que vocês acham que dá cor às peças?”, perguntou Lorena. “Pois a fuligem dos fogões, as cascas da cebola e dos pinhões, entre outras formas de tingimento”, respondeu, sabendo do nosso pouco conhecimento no assunto.

As mãos hábeis de Herminia passavam as lãs no tear, segurando com o bastão e batendo o tecido para que ficasse firme, unido. Aprendemos como se formam os desenhos, como se fia na roca e que as artesãs da comunidade Millaín Currical foram premiadas como as melhores tecelãs da província de Neuquén.
Admiramos o costume carinhoso e também respeitoso de se cumprimentar com um beijo em cada bochecha. Aderimos a ele na hora de nos despedir delas.
Prometemos voltar a esta festa que, a cada ano, cresce em atividades, adeptos e brilho. Deixamos para trás dois dias de pura jineteada para escolher as melhores montarias, mas, sobretudo, para matar a vontade de uma boa conversa ao pé do fogo.
Localização
Cajón Chico fica na rodovia provincial 26, a dez quilômetros de Caviahue, em direção a Loncopué.
Dicas
Cobra-se entrada.
Sábado à noite, baile popular.
Há cantina.



















