Passeios e excursões · Río Mayo
A tosquia tem sua festa nacional
Texto: Mónica Pons · Fotos: Dirección de Turismo de Río Mayo
Durante três dias e suas noites, participamos da Festa Nacional da Tosquia. A grande família do campo desce dos seus postos para mostrar sua arte na criação de ovelhas.

A tosquia de ovelhas e a doma de cavalos são tradicionalmente as provas mais duras. São acompanhadas pelas torcidas de cada paisano e de cada estância, e são a essência da festa.
Ao chegar a Río Mayo, notamos um movimento surpreendente. A Festa Nacional da Tosquia reúne muitas caminhonetes, gente a cavalo, paisanos com seus trajes típicos do campo e muita animação.
O local se destacava de longe pela música, pelas vozes e pela clássica fumaça das churrasqueiras. Chegavam vizinhos de todos os cantos e também pessoas como nós, alheias à lida do campo, que queriam estar presentes.
Entramos e encontramos uma comunidade que dedica os 365 dias do ano à sacrificada criação e tosquia das ovelhas e que homenageia os antigos colonos que chegaram à região com um pequeno rebanho como única bagagem.
Segundo os relatos, naquela época viajavam a Comodoro Rivadavia uma vez por ano para vender a lã e comprar mantimentos. Famílias inteiras viviam longe das cidades e impuseram sua força contra as adversidades do clima e a solidão, buscando um futuro para si e para os filhos.
Ouvimos dizer: “Com as costas curvadas pelo esforço, enfrentamos nevascas, ventanias e temporais; soltamos os carneiros na hora certa; torcemos para que os cordeiros recém-nascidos não congelem com alguma nevasca atrasada. Marcamos, assinalamos, cortamos rabos e finalmente chega a tosquia. É o momento da colheita, de receber o pagamento por todo o sacrifício do ano. Por isso celebramos com esta festa”.

Marca registrada da Patagônia
Em cada momento importante dos três dias, aprendemos sobre o simbolismo próprio da atividade: o velo, a tesoura, o pente e a fiação. Uma das maiores surpresas foi descobrir que, além das ovelhas, na região também se tosquia o guanaco. Pudemos ver uma demonstração dessa tarefa e do fio fino com que depois se tecem peças delicadas.
A poeira anunciou a entrada dos grupos gaúchos enfeitados para a ocasião. As moças, com seus rostinhos de menina e corpos esguios, esperavam aquele momento tão especial em que o júri escolheria a Rainha Nacional e a Miss Velo.
Provamos o apreciado cordeirinho patagônico. Os paisanos cortavam um pedaço de carne direto da churrasqueira. Saboreamos com a mesma simplicidade, sem precisar de prato: só faca e pão.
Durante o concurso de tosquia, as famosas tesouras dançavam nas mãos dos tosquiadores experientes. Destreza e rapidez ficaram evidentes em cada um, embora só um tenha vencido. Várias mulheres mostraram estar à altura dos homens.
Os participantes mostravam orgulho de competir tanto com a velha técnica da tesoura quanto com a nova modalidade à máquina, com pentes. Essa técnica melhorou o trato da lã e do animal, o que trouxe preços melhores no mercado de lã.
Não podia faltar a jineteada (a doma tradicional) nas categorias grupa sureña e bastos com encimera, e o concurso da melhor corda e do melhor cavalo. Os protagonistas se mediam entre si e discutiam sobre as tropilhas trazidas para a ocasião, exibindo suas melhores “pilchas” gaúchas.
Os payadores acompanhavam com seus versos de improviso, dando cor ao espetáculo, muitas vezes para animar os participantes e outras para arrancar um sorriso do público com suas malícias.
No palco se apresentavam artistas locais e nacionais de grande nome e, no baile popular, quase sem querer, entramos no rodopiar de lenços. A alegria durou até o amanhecer.
Confirmamos que nossas tradições do campo estão intactas. Enquanto houver costumes passados de geração em geração, seus valores não vão se perder e poderemos mostrá-los ao mundo. Como anfitriã entusiasmada, Río Mayo festejou “à moda do campo” um ano de duro trabalho rural e o compartilhou com seus visitantes.
Dicas
Acontece na segunda quinzena de janeiro de cada ano.




