Passeios e excursões · Ancud
A ilhota virgem
Texto: Mónica Pons · Fotos: Eduardo Epifanio
Uma ilhota virgem onde vivem centenas de pinguins e leões-marinhos. Um passeio pela natureza, guiado por moradores experientes que vivem da pesca e do turismo.
Depois de uma recomendação recebida em Ancud, decidimos visitar a península de Lacuy, a 26 quilômetros dali. Na rodoviária, pegamos um ônibus rural lotado de moradores locais, que ia para Quetalmahue. Éramos os únicos turistas.





As ilhotas de Puñihuil em dados
O alemão eufórico
Íamos para uma região de pescadores, coletores de algas e pequenos agricultores. Depois de aproximadamente uma hora, descemos em um cruzamento, caminhamos uns 400 metros e chegamos à praia de Ahui, a nordeste da península, onde era possível acampar. Um lugar de uma tranquilidade encantadora, de onde podíamos ver a cidade de Ancud.
Montamos nossa barraca e nos preparamos para descansar admirando a vista. Em meio àquela paz, apareceu um homem dizendo aos gritos que devíamos acompanhá-lo para que nos apresentasse uns moradores incríveis, que o tinham levado para passear em uma ilhota virgem com centenas de pinguins e leões-marinhos.
A caminho do desconhecido, com um desconhecido
Surpresos, escutamos com atenção aquele senhor, cujos olhos brilhavam de alegria ao nos contar sua experiência. Quase chegando a ser inconveniente, suas palavras eram tentadoras, e sua insistência fez com que nos olhássemos e finalmente subíssemos em sua caminhonete. Esse senhor é um alemão que mora há anos em Santiago (Chile). Enquanto dirigia, ia nos contando detalhes do passeio que tinha feito no dia anterior. Crescia em nós a vontade de conhecer aquele lugar que o alemão descrevia com tanto entusiasmo.
Seguimos primeiro em direção a Quetalmahue e dali pegamos a estrada que margeava a costa do Pacífico rumo ao sul, até chegar à região de Mar Brava (a 21 quilômetros de Ancud). Ali fica a praia de mesmo nome, que mostra a fúria do oceano Pacífico. Em seu extremo sul está a Piedra del Run, testemunho natural cravado em meio a ravinas vertiginosas. Deve seu nome ao ruído do vento sul junto com as ondas do mar ao baterem na enorme pedra.
Descemos perto dali. O alemão fez as vezes de anfitrião e nos apresentou aos moradores. Um deles era o responsável por fazer o passeio. Combinamos o preço e, sem mais preâmbulos, partimos.
Rumo à desejada ilhota
Seguimos mais 4 quilômetros para o sul, até Puñihuil, onde, em uma linda baía, há três ilhotas muito próximas da praia que abrigam as pinguineiras. Dali subimos no pequeno barco de madeira rumo a um dos maiores tesouros naturais da comuna.
Viajava conosco o alemão, que obviamente voltava, junto com suas filhas e um amigo. A água de um azul profundo criava um estranho fenômeno que o pescador nos descrevia: quando o oceano Pacífico se encontra com o mar interior, formam-se ondas que surgem de repente pela diferença de altura entre os dois, maior que 6 metros. O fenômeno se repetiu várias vezes e era incrível ver como, diante de nós, o mar crescia de repente e nos elevava.
Duas espécies de pinguins
Segundo ele nos contava, nessas ilhotas fazem ninho pinguins-de-humboldt e pinguins-de-magalhães, que convivem em um mesmo ecossistema entre dezembro e março. Duas espécies que chegam de muito longe e lutam pacificamente pela sobrevivência, em perfeita harmonia. E apenas um homem vivia na ilhota para onde íamos: era o encarregado de cuidar dela, e ninguém mais podia ficar ali.
No trajeto, o alemão nos prometia que desta vez, sim, tocaria um pinguim, já que na vez anterior tinha tentado sem sucesso. Agora estava obcecado pela ideia. O pescador sorria ao ouvi-lo e depois, calado, continuava pilotando o barco com uma tranquilidade admirável. A viagem, de uns quarenta minutos, passou rapidíssimo. Entramos em uma pequena baía onde o barco ancorou e começamos a descer.
Pinguins
O alemão gritou de repente: “Ali estão! Pinguins!”. Foi o primeiro a descer, estava enlouquecido.
Havia centenas de pinguins na praia, a uns 150 metros de nós, com aquela tranquilidade que os caracteriza quando estão em terra. Enquanto íamos descendo um por um, com os sapatos na mão para não molhá-los, o alemão, sem esperar, começou a correr para tocá-los. Obviamente, à medida que se aproximava, eles iam se jogando na água.
Com a câmera fotográfica na mão, comecei a correr descalço sobre as pedras (uma sensação que recomendo não experimentar), para poder fotografá-los antes que mergulhassem por completo.
Uma corrida até a água
Enquanto corria e me aproximava, eu os via se jogando na água; pareciam disputar uma corrida. Era maravilhoso vê-los mergulhar e nadar a uma velocidade surpreendente. Os pinguins podem alcançar na água uma velocidade aproximada de 45 quilômetros por hora. Cheguei tarde: poucos pinguins continuavam em terra e o alemão tinha algumas marcas das bicadas que tinha levado.
As outras pessoas chegaram pouco depois. Ficamos observando-os por um bom tempo, já de longe.
Mas o passeio não terminou aí. O pescador nos convidou a subir de novo no barco, para nos levar a conhecer outros habitantes da ilhota: os leões-marinhos.
A comunidade barulhenta
Começamos a contornar a ilhota e avistamos centenas de leões-marinhos que descansavam deitados sobre as grandes rochas. Dividiam o lugar com centenas de gaivotas, algumas sobre as pedras e outras voando.
À medida que continuávamos nos aproximando, ouvimos os sons que os leões-marinhos emitiam, muito fortes e variados. Um espetáculo fascinante, que ninguém deveria perder, ainda mais quando começaram a se jogar na água, um atrás do outro, sem parar. Nadavam para se aproximar do barco, para nos observar. Claro! O que estávamos fazendo ali? Eles eram mais curiosos do que nós.
O pescador desligou o motor e nos aproximou o máximo que pôde das rochas. Os leões-marinhos continuavam se jogando e chegando cada vez mais perto do barco. Era impressionante, não conseguíamos acreditar: suas cabeças saíam da água, uma e outra e outra… havia de 20 a 30 deles, muito perto de nós, a apenas dois metros.
Cara a cara com os leões-marinhos
Enquanto isso, continuávamos ouvindo os sons curiosos dos que permaneciam sobre as rochas.
De vez em quando, o pescador ligava o motor e nos afastava das rochas, enquanto a maré insistia em nos aproximar delas.
Todos como crianças, nós os observávamos e tirávamos fotos, sem querer saber que tínhamos de voltar. Queríamos que aquele momento maravilhoso durasse mais.
A hora da volta
Mas tinha chegado o momento de retornar à terra firme. Cada um se despediu, à sua maneira, dos pinguins, dos leões-marinhos e da ilhota que nos tinha mostrado tantas maravilhas.
A viagem de volta foi silenciosa; cada um relembrava para si o que tinha vivido e guardava dentro de si aqueles momentos inesquecíveis.
O regresso
A volta seria mais longa, segundo nos dizia o pescador, por causa da maré. Ela tinha mudado, e o mar não estava tão calmo como de manhã, mas nada ofuscaria a nossa experiência.
O ponto alto do passeio foi quando, já perto da baía onde desembarcaríamos, o pescador nos deixou pilotar o barco por um tempo, enquanto o vento forte batia em nossos rostos. Já começava a entardecer…
A proteção das ilhotas
A Fundação Alemã Otway trabalha desde 1997 em um projeto de proteção e conservação natural das pinguineiras e não permite o desembarque nas ilhotas. São feitas, sim, navegações guiadas por voluntários da Fundação ao redor das ilhotas.
É possível fazer a navegação com pescadores artesanais que oferecem o percurso nos povoados de Puñihuil e Quetalmahue.
Sugestões
Abasteça o carro em Ancud. Há asfalto só até Quetalmahue.
Saindo de Ancud pela avenida costeira em direção a Lechagua (rumo ao oceano Pacífico), após 14 km pega-se a estrada à esquerda, em direção a Pumillahue e à praia de Puñihuil. Antes de Pumillahue, é possível seguir por uma estrada irregular de cascalho e areia que leva à praia de Mar Brava (a 21 km de Ancud).



















