Passeios e excursões · Puerto Montt
Parque Nacional Alerce Andino
Texto: Pablo Etchevers · Fotos: Sur Marino
Saindo de Puerto Montt e pegando a Carretera Austral, chega-se ao Parque Nacional Alerce Andino. Ali descansam os últimos 20 mil hectares de um bosque milenar que tem muito a nos ensinar.
O Parque Nacional Alerce Andino é um verdadeiro patrimônio natural da humanidade. Ocupa uma extensão de 40 mil hectares, dos quais cerca de 20 mil correspondem a bosques de alerces que ficam nas áreas montanhosas da região de Los Lagos. Diz-se popularmente que o alerce é uma árvore que está sempre verde. Sua casca é de cor castanha; sua madeira, avermelhada, macia, leve e impermeável, por isso nunca apodrece. Antigamente era usada na construção de casas, barcos transoceânicos e até aviões. Basta observar as fachadas das casas do sul do Chile para perceber que suas paredes e telhados são revestidos de pequenas telhas, todas do mesmo tamanho, feitas de alerce e conhecidas como tejuelas de alerce. Embora sejam vistosas, hoje são uma clara mostra dos danos irreparáveis que o homem causou à natureza.




O Parque Nacional Alerce Andino em dados
Um verdadeiro livro aberto
O alerce cresce apenas um centímetro a cada quinze anos e, mesmo assim, essas árvores chegam a ultrapassar os cinquenta metros de altura e a viver mais de 4.000 anos. Não é à toa que são chamadas de “livros abertos”, já que seus enormes veios permitem aos cientistas ler as mudanças climáticas e geológicas ocorridas nos últimos milhares de anos. No entanto, e por mais paradoxal que pareça, sua madeira continua sendo usada pela indústria madeireira, embora o alerce seja considerado por todos o “venerável ancião” dos bosques do sul. E dos 260 mil hectares de bosques de alerce que restam, apenas 42 mil hectares estão protegidos pelo Estado chileno.
Reconstruindo o clima do passado
Graças ao alerce, o cientista chileno Antonio Lara conseguiu reconstruir como foi o clima nos últimos 3.620 anos nesta parte do continente. Isso apesar de não existirem estações meteorológicas com mais de um século de antiguidade. Acontece que, por sua longevidade, o alerce é considerado vital para compreender processos como as mudanças climáticas e até o aquecimento global que afeta o planeta, e só agora começou a fazer parte das políticas públicas dos Estados nacionais e das milhares de associações ecologistas espalhadas pelo mundo.
E essa pesquisa foi tão importante que o trabalho do cientista foi publicado pela revista “Science”, onde o alerce é citado como um livro aberto, e que, segundo o especialista, “a história ambiental deste planeta está escrita em todos os seus anéis. É como um quebra-cabeça montado a partir de árvores vivas e mortas”. Como as demais árvores, os alerces formam todos os anos uma nova camada de madeira sob a casca (conhecida como anéis), que permite saber se no passado fez frio ou calor, se houve chuva ou grandes secas. Por tudo isso, seu desaparecimento privaria a humanidade de uma informação única para estabelecer como o clima do mundo mudou e como continua mudando. Seus anéis, nem é preciso dizer, são os mais antigos de todos.
Caminhar pelas trilhas
Além da densa vegetação do lugar, lagoas e lagos se escondem entre as montanhas e os bosques. Por isso, chegar a esses lugares pelas inúmeras trilhas que percorrem todo o parque se torna uma de suas maiores atrações. A possibilidade de avistar a fauna nativa típica do sul do Chile é outro dos grandes desejos dos visitantes que o percorrem. Pudu ou veado chileno, pumas, güiñas, raposas, viscachas e monitos del monte são alguns dos mamíferos que costumam cruzar o caminho dos turistas durante as caminhadas.
Entre as aves, destacam-se o condor, o pica-pau-preto, o huet-huet, o martim-pescador, o peuco, o pato-real, o caiquén e a pomba-torcaz. Como em toda a região de Los Lagos, entre os peixes estão a perca, a peladilla e as trutas arco-íris e marrons. As caminhadas e a navegação são as duas grandes atividades realizadas dentro do parque, o que, claro, permite explorar a flora e a fauna em estado de natureza plena.
Talvez por isso este passeio seja escolhido por quem gosta de relaxar se aproximando de lugares de grande beleza e totalmente livres da presença humana, o que significa que a poluição não existe ou é praticamente nula. Úmido como nenhum outro, com cores e cheiros especiais, seus bosques virgens, suas altas montanhas e a navegação de canoa por alguma de suas inúmeras lagoas, este lugar permite aos visitantes entrar no coração do Parque Nacional que esconde em seu interior o milenar alerce, o verdadeiro senhor dos anéis.
Sugestões
A melhor época para visitá-lo é entre novembro e março. Um dado fundamental é que o parque conta com guarda-parques para apoiar os visitantes durante o percurso. É preciso levar roupas confortáveis e até algum equipamento impermeável ou corta-vento, por causa da umidade constante e permanente do lugar. Proibido esquecer a câmera fotográfica.
Como chegar
De Puerto Montt, pega-se a Carretera Austral e, depois de percorrer 39 quilômetros, chega-se à entrada do Parque Nacional Alerce Andino.



















