Passeios e excursões · Puerto Natales
Terra de gigantes
Texto: Marcelo Sola · Fotos: Marcelo Sola
Tão colossais quanto únicas, as Torres del Paine se erguem no sul da Patagônia chilena, soberbas sobre a paisagem que as rodeia.
Nossa base foi a cidade de Puerto Natales, situada a 150 quilômetros do Parque Nacional Torres del Paine. Da Argentina, entramos no país vizinho pelo paso Dorotea, localizado na cidade carbonífera de Río Turbio. Depois de apenas 10 quilômetros, chegamos à cidade do outro lado da cordilheira.







As Torres del Paine em dados
Puerto Natales, nossa base
Puerto Natales é a capital da província de Última Esperanza. Situada ao nível do mar, à beira do canal Señoret e diante da cordilheira dos Andes patagônicos, é uma cidade com uma notável influência inglesa em sua arquitetura, em seu comércio e em alguns de seus costumes.
Conta com uma boa infraestrutura turística, capaz de receber um número considerável de visitantes que aproveitam seus cafés, restaurantes, cassino, lojas e importantes agências de viagens que oferecem programas imperdíveis na região.
Seus arredores são dominados por estâncias centenárias que se dedicam à criação de gado, ao cultivo orgânico e, nos últimos tempos, ao turismo.
Rumo às montanhas
As excursões ao Parque Nacional Torres del Paine costumam começar muito cedo. Assim se aproveita o máximo possível de luz do sol. Em nossa visita, começamos com o “super trekking até a base das Torres”.
A rota 9 foi a encarregada de nos levar até a entrada do parque, situada diante da laguna Amarga. Percorremos uma estrada asfaltada que depois se transformou em cascalho compactado. Diminuir a velocidade e contemplar as paisagens que aparecem no caminho é uma boa receita. Assim a gente vai se “desligando” dos costumes da cidade e chega ao destino sem nenhum risco... sem problemas.
O parque nacional
As Torres del Paine fazem parte das onze unidades do sistema nacional de Áreas Silvestres Protegidas da décima segunda região do Chile, formado por cinco parques nacionais, três reservas e três monumentos naturais, que no total somam uma superfície aproximada de 6.728.744 hectares. Criado em 1959, o parque foi declarado Reserva da Biosfera pela UNESCO em 28 de abril de 1978, com uma superfície de 242.000 hectares.
A variedade de espécies vegetais e animais, somada aos atraentes cenários de sua geografia agreste, faz da região um lugar ideal para a prática de esportes de aventura e para a contemplação.
Para percorrer o parque, há várias trilhas habilitadas que levam o visitante aos lugares mais bonitos. Os circuitos mais conhecidos são o “W”, que tem duração mínima de 4 dias e percorre um total de 76 quilômetros, e o Maciço Paine, de 7 dias, com um total de 93 quilômetros.
Hora de caminhar
A falta de tempo nos levou diretamente a um dos lugares mais emblemáticos e maravilhosos do parque: as torres propriamente ditas. Para chegar até lá, fomos até a Hostería las Torres –situada dentro da área protegida–, onde organizamos o equipamento para começar a caminhada.
Vale destacar que o parque nacional conta, em seu interior, com diferentes complexos que oferecem hospedagem e gastronomia de primeiro nível. Além da hostería mencionada, há as hosterías Pehoe, del Lago Grey, del Monte Balmaceda, a posada del Río Serrano, o exclusivíssimo Hotel Explora e inúmeros refúgios e campings que oferecem box-lunch e dormitórios quentinhos e confortáveis, ideais para fazer uma pausa na jornada e desfrutar de um merecido descanso.
Fauna, flora e ritmo de caminhada
Começamos o trekking com a esperança de encontrar boa parte da fauna que vive no setor. Entre os mamíferos, destaca-se a presença de pumas, raposas, guanacos e huemules; entre as aves mais atraentes, podem ser observados condores, emas, cisnes-de-pescoço-preto e flamingos.
Os microclimas existentes no parque geram uma interessante e variada diversidade vegetal, composta em sua maioria por matagais pré-andinos, floresta magalânica, estepe patagônica e deserto andino.
Ao caminhar, é importante encontrar o ritmo do passo e tentar mantê-lo. Como estávamos com um grupo de turistas que fazia a mesma subida, acompanhamos o ritmo do mais lento.
Vestir-se em camadas
À medida que ganhávamos altura, fomos nos adaptando às diferentes mudanças de clima que apareciam. A proximidade do Campo de Hielo Sur e do oceano Pacífico faz com que o tempo possa mudar em poucas horas. O segredo na Patagônia é vestir-se em camadas para obter o máximo de conforto com o mínimo de peso. Para isso, é importante usar roupa resistente ao vento e de secagem rápida; por isso é melhor não usar algodão.
A inclinação foi ficando cada vez mais acentuada. Durante o trekking, tivemos a sorte de ver um condor planar. Por um instante senti o brilho de seus olhos. Com olhar frio e penetrante, sobrevoou-nos por um momento e depois sumiu.
O vale do rio Ascencio
Depois de percorrer aproximadamente quatro quilômetros, atravessamos o “Paso de los vientos” e começamos a margear o rio Ascencio, assim chamado por ter sido o esconderijo de um conhecido ladrão de gado de mesmo sobrenome, fugitivo da lei durante anos na década de 30.
O parque tem inúmeros rios, lagoas e lagos que devem sua formação ao degelo das geleiras que o compõem. Os mais importantes são o Pingo, Paine, Serrano e Grey, que formam espetaculares quedas-d'água.
Até o refúgio El Chileno
Quando se caminha ou se faz uma subida, é muito importante beber água antes de sentir sede; assim se diminui o risco de desidratação.
Pude ver como a Torre Sur, de 2850 metros, aparecia em meio à paisagem montanhosa. A ansiedade de chegar e observar todo o cenário aumentou, renovando a vontade de continuar a caminhada.
Depois de duas horas e meia de caminhada, chegamos ao refúgio e camping El Chileno. Paramos para descansar. Aproveitamos o momento para comer o box-lunch, composto por alimentos ricos em proteínas, glicose e aminoácidos.
A última subida
Antes que o corpo esfriasse completamente, retomamos o trekking. Faltava a parte mais difícil da subida. Seguiram-se subidas intensas e descidas abruptas. Uma densa floresta de lengas nos abrigou por alguns instantes. Atravessamos riachos por pontes suspensas e sulcos de água de montanha.
Deixamos para trás o Campamento Torres, onde fica um dos guarda-parques que cuidam da região, e começamos a subir por uma morena de pedras até a própria base das torres.
Um colosso de granito e gelo
Rapidamente esquecemos as torções, as câimbras e o cansaço. O cartão-postal que se abria diante dos nossos olhos justificava de sobra o esforço. Em silêncio contemplamos as Torres del Paine, o cerro Nido de Cóndor e a laguna formada pelo ventisquero Torres.
Nesta região, as camadas superiores da crosta terrestre se ergueram há doze milhões de anos com uma força descomunal, elevando ao céu os cumes de rocha e gelo das Torres del Paine. A erosão e o tempo se encarregaram de esculpir e dar forma a estes monólitos de mais de 2000 metros de altura.
Agradecemos à montanha por nos deixar chegar, descemos da morena até a margem da laguna e, entre suspiros e fascinação, deixamos o tempo passar. A imponente formação rochosa é composta pela Torre Sur, de 2850 metros, a Torre Central, de 2800 metros, a Torre Norte, de 2248 metros, e o Cerro Nido de Cóndor, de 2243 metros.
Paisajes Magallánicos
Antes de voltar a Natales, enquanto observava perplexo as Torres, veio à minha mente a emocionante descrição que o Padre Alberto De Agostini fez em seu livro “Paisajes Magallánicos”, que li antes de visitar o parque: “O maciço do Paine adquire uma majestade e uma beleza tão misteriosas que fascinam poderosamente o espírito. Os tons azuis e violeta de suas ravinas contrastam vivamente com o rosado e o vermelho de suas torres e pirâmides, ousadamente lançadas para o azul do céu.” E o melhor de tudo é que era verdade.
Como chegar
É possível chegar às Torres del Paine em veículo próprio ou no transfer da agência de turismo que organiza o trekking. Em ambos os casos, deve-se sair da cidade de Puerto Natales em direção noroeste pela rota nº 9.
Sugestões
Entre as recomendações mais importantes, sugerimos recolher todo o lixo que geramos no parque. Proteger a vegetação, sem arrancar flores nem plantas. Evitar o uso de produtos químicos para lavar a louça ou na higiene pessoal. Seguir apenas as trilhas sinalizadas. Usar calçado confortável e roupa de montanha. Levar óculos de sol e protetor solar. Acampar apenas nos locais autorizados. Por último, levar um fogareiro, já que é estritamente proibido fazer fogueiras nos acampamentos de montanha.



















