Muito antes de existirem a Argentina e o Chile, diferentes povos habitavam os dois lados da cordilheira. Em Neuquén ainda se conservam pinturas e gravuras rupestres das culturas mais antigas, e os últimos grupos que povoaram o território antes da conquista foram os puelches, os pehuenches e os mapuches. Aqui contamos quem são, como viviam, como sua história mudou com a chegada dos espanhóis e dos Estados nacionais e quais são seus instrumentos musicais.
Mapuches, um povo preexistente
Os colonizadores espanhóis os chamaram de araucanos. Os registros arqueológicos e genéticos confirmam a continuidade da população no centro-sul do Chile e da Argentina, e os Estados nacionais se formaram depois da consolidação dessas identidades culturais. Por isso, segundo pesquisadores do Conicet, são povos preexistentes: não podem ser definidos como chilenos ou argentinos.
Cruzar a cordilheira para fazer comércio era frequente. O cavalo, trazido pelos espanhóis, transformou os mapuches da Araucanía de agricultores em hábeis cavaleiros, caçadores e guerreiros: passaram a circular mais pela cordilheira e submeteram os povos dos pampas com suas incursões.
A anexação da Araucanía ao território chileno confinou o povo mapuche em territórios delimitados pelo Estado e fechou as rotas entre o Chile e a Argentina. Eles tiveram que se tornar agricultores em terras de baixa qualidade entre o litoral e a cordilheira.
Do lado argentino, o confronto foi primeiro com as autoridades de Buenos Aires, lideradas por Juan Manuel de Rosas, e de outras províncias como Córdoba, San Luis ou Mendoza, e depois com a República. A Pacificação da Araucanía e a Campanha do Deserto fizeram parte da consolidação dos Estados, e seu legado continua presente: hoje os mapuches seguem lutando por seus direitos e pelo reconhecimento de sua cultura e de seu território.
Puelches e pehuenches
Desde a colônia, usou-se «araucano» para todas as populações nativas. No fim do século XIX e começo do XX, os estudiosos passaram a diferenciar mapuches, picunches, huilliches, pehuenches e puelches, entre outros. Segundo estudiosos do mapudungun, esses povos usavam apenas a palavra «reche» (re, autêntico; che, gente) para se referir a si mesmos.
Do lado chileno, os puelches habitavam a Patagônia central e os pehuenches as encostas da cordilheira entre o rio Maule e o vulcão Lonquimay. Do lado argentino, os pehuenches viviam no sul de Mendoza e no norte de Neuquén, e os puelches mais ao norte, na região de Cuyo.
Alguns estudos os consideram muito parecidos, mas sua economia era diferente: os pehuenches coletavam o pinhão do pehuén, fruto que lhes deu nome e identidade, e os puelches caçavam guanacos, emas e cervos andinos.
Com os espanhóis chegaram a troca de produtos e o controle do gado. Mais tarde, a propriedade comunitária foi subdividida e o avanço dos colonos tomou suas terras ancestrais. Compartilhavam a língua com os mapuches, mas tinham traços próprios, embora o deslocamento tenha levado depois à mistura dos grupos.
Os mapuches em fotos antigas

















Instrumentos musicais
Os relatos antigos descrevem uma música simples, de tom grave e lamentoso, marcada pelo clima duro e pela luta para sobreviver em terras cobertas de neve durante meses. Entre seus instrumentos estão o cultrun, a trutruca, a pifilca, o ñorquin e o quinquercahue ou violino araucano, e vários deles são tocados todos juntos em cerimônias como o nguillatun e o machitun.
O cultrun é um tambor de madeira escavada em forma de timbale, coberto com couro de cavalo bem esticado e tocado com uma única baqueta enfeitada com fios coloridos. O caquel cultrum é feito com um tronco oco, a huala é uma cabaça com sementes secas ou pedrinhas, como uma maraca, e as cada cada são grandes conchas que soam ao esfregar suas bordas raiadas.
A trutruca é uma cana colihue de até quatro metros, partida, escavada e unida de novo com fio de lã e tripa de cavalo, com um chifre de vaca em uma das pontas. Seu som, parecido com o mugido de um touro, representa a força da comunidade; junto com o erke, é um dos dois grandes aerofones do país. O lolquin é parecido, mas muito menor, feito com a haste do cardo troltro; o cullcull, de chifre de boi, dava o alarme em emergências ou na guerra, e o clarín imitou com canas e madeira o clarim trazido pelos espanhóis.
A pifilca, de madeira ou osso, é curta, soa como um apito e é levada pendurada no pescoço; hoje é entalhada em peças de 30 a 40 centímetros, com o tubo fechado embaixo, e dá uma única nota que se mistura ao canto. O pinquilhue, de tempos remotos, era uma espécie de flautim feito com o caule do colihue.
O quinquercahue tinha dois arcos, geralmente de costela, e uma única corda de crina de cavalo. Com a mão esquerda se apoiava um dos arcos contra os dentes de cima e, com a direita, passava-se a corda do outro arco por cima, com um som lamentoso.
Onde conhecer a cultura mapuche 10
Bom saber
O Ano-Novo mapuche é celebrado no solstício de inverno, no fim de junho. Para os mapuches, coincide com o fim da colheita e o início do plantio.
Acontece no fim de cada verão em Cajón Chico, a veranada mapuche de Caviahue, com artesanato, habilidades campeiras e jineteada.
Cerimônias como o nguillatun são sagradas: participe só se a comunidade convidar e peça permissão antes de tirar fotos.
Muitos nomes da Patagônia vêm do mapudungun: Curarrehue, de kura rewe, «altar de pedra»; Peuma Hue, «lugar de sonhos»; Antillanca, «joia do sol».
No Dicionário Mapuche-Espanhol você encontra o significado de muitas palavras em mapudungun.
Fontes: Julio Vezub (2017), «Controversia e identidad mapuche», IPCSH-Conicet; Memoria Chilena: «El pueblo mapuche», «Las poblaciones reche-mapuche» e «Pehuenches y puelches»; fotos antigas: Wikimedia Commons, domínio público.









