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Temáticos · Cultura mapuche

Cultura mapuche

Informações detalhadas sobre a cultura mapuche e araucana

Muito antes de existirem a Argentina e o Chile, diferentes povos habitavam os dois lados da cordilheira. Em Neuquén ainda se conservam pinturas e gravuras rupestres das culturas mais antigas, e os últimos grupos que povoaram o território antes da conquista foram os puelches, os pehuenches e os mapuches. Aqui contamos quem são, como viviam, como sua história mudou com a chegada dos espanhóis e dos Estados nacionais e quais são seus instrumentos musicais.

Mapuches, um povo preexistente

Dos dois lados da cordilheira

Os colonizadores espanhóis os chamaram de araucanos. Os registros arqueológicos e genéticos confirmam a continuidade da população no centro-sul do Chile e da Argentina, e os Estados nacionais se formaram depois da consolidação dessas identidades culturais. Por isso, segundo pesquisadores do Conicet, são povos preexistentes: não podem ser definidos como chilenos ou argentinos.

O cavalo e o comércio

Cruzar a cordilheira para fazer comércio era frequente. O cavalo, trazido pelos espanhóis, transformou os mapuches da Araucanía de agricultores em hábeis cavaleiros, caçadores e guerreiros: passaram a circular mais pela cordilheira e submeteram os povos dos pampas com suas incursões.

1882, uma ruptura profunda

A anexação da Araucanía ao território chileno confinou o povo mapuche em territórios delimitados pelo Estado e fechou as rotas entre o Chile e a Argentina. Eles tiveram que se tornar agricultores em terras de baixa qualidade entre o litoral e a cordilheira.

Um conflito longo

Do lado argentino, o confronto foi primeiro com as autoridades de Buenos Aires, lideradas por Juan Manuel de Rosas, e de outras províncias como Córdoba, San Luis ou Mendoza, e depois com a República. A Pacificação da Araucanía e a Campanha do Deserto fizeram parte da consolidação dos Estados, e seu legado continua presente: hoje os mapuches seguem lutando por seus direitos e pelo reconhecimento de sua cultura e de seu território.

Puelches e pehuenches

Um nome que não os representava

Desde a colônia, usou-se «araucano» para todas as populações nativas. No fim do século XIX e começo do XX, os estudiosos passaram a diferenciar mapuches, picunches, huilliches, pehuenches e puelches, entre outros. Segundo estudiosos do mapudungun, esses povos usavam apenas a palavra «reche» (re, autêntico; che, gente) para se referir a si mesmos.

Onde viviam

Do lado chileno, os puelches habitavam a Patagônia central e os pehuenches as encostas da cordilheira entre o rio Maule e o vulcão Lonquimay. Do lado argentino, os pehuenches viviam no sul de Mendoza e no norte de Neuquén, e os puelches mais ao norte, na região de Cuyo.

Coletores e caçadores

Alguns estudos os consideram muito parecidos, mas sua economia era diferente: os pehuenches coletavam o pinhão do pehuén, fruto que lhes deu nome e identidade, e os puelches caçavam guanacos, emas e cervos andinos.

A perda de suas terras

Com os espanhóis chegaram a troca de produtos e o controle do gado. Mais tarde, a propriedade comunitária foi subdividida e o avanço dos colonos tomou suas terras ancestrais. Compartilhavam a língua com os mapuches, mas tinham traços próprios, embora o deslocamento tenha levado depois à mistura dos grupos.

Os mapuches em fotos antigas

Mapuches tomando chimarrão no pampa enquanto a carne cozinha, por volta de 1890.
Mapuches tomando chimarrão no pampa enquanto a carne cozinha, por volta de 1890.Autor desconhecido · Archivo General de la Nación Argentina
O cacique Lloncon, com trarilonko e manta. Traiguén, Araucanía, por volta de 1890.
O cacique Lloncon, com trarilonko e manta. Traiguén, Araucanía, por volta de 1890.Gustavo Milet Ramírez · British Museum
O lonko Manuel Namuncurá em Buenos Aires em 1884, depois de se render, com o uniforme militar que lhe deram e mulheres de sua família.
O lonko Manuel Namuncurá em Buenos Aires em 1884, depois de se render, com o uniforme militar que lhe deram e mulheres de sua família.Autor desconhecido
Interior de uma ruka mapuche no fim do século XIX.
Interior de uma ruka mapuche no fim do século XIX.Odber Heffer · Biblioteca Nacional da França
Cacique araucano da «Cordillera del Sud», Argentina, por volta de 1902.
Cacique araucano da «Cordillera del Sud», Argentina, por volta de 1902.Autor desconhecido · cartão-postal
Mulheres mapuches se penteando, sul do Chile.
Mulheres mapuches se penteando, sul do Chile.Odber Heffer · publicada em 1908
Mapuche do sudoeste argentino com sua roupa de gala, 1924.
Mapuche do sudoeste argentino com sua roupa de gala, 1924.Autor desconhecido · Archivo General de la Nación Argentina
Cavalaria mapuche, 1903.
Cavalaria mapuche, 1903.Editor Carlos Brandt, Concepción · cartão-postal
Manuel Namuncurá ao lado do filho Ceferino, por volta de 1899.
Manuel Namuncurá ao lado do filho Ceferino, por volta de 1899.Autor desconhecido · Archivo General de la Nación Argentina
Um lonko com a esposa, a filha e a neta, sul do Chile.
Um lonko com a esposa, a filha e a neta, sul do Chile.Odber Heffer · La Lira Chilena
Delegação mapuche em Buenos Aires para reivindicar as terras onde viviam, 1920.
Delegação mapuche em Buenos Aires para reivindicar as terras onde viviam, 1920.Autor desconhecido · Archivo General de la Nación Argentina
Machis com seus kultruns, por volta de 1900.
Machis com seus kultruns, por volta de 1900.Autor desconhecido
Mulher mapuche com quipán, trariwe e colar de moedas de prata. Traiguén, por volta de 1890.
Mulher mapuche com quipán, trariwe e colar de moedas de prata. Traiguén, por volta de 1890.Gustavo Milet Ramírez · British Museum
Mulher mapuche fiando lã, sul do Chile.
Mulher mapuche fiando lã, sul do Chile.Odber Heffer · publicada em 1908
Família mapuche diante de sua casa, com o tear montado do lado de fora. Sul do Chile, por volta de 1922.
Família mapuche diante de sua casa, com o tear montado do lado de fora. Sul do Chile, por volta de 1922.Harriet Chalmers Adams
Mapuches no sul do Chile, entre 1890 e 1900.
Mapuches no sul do Chile, entre 1890 e 1900.Odber Heffer · Biblioteca Nacional da França
Um grupo de mapuches em Metrenco, Araucanía, 1906.
Um grupo de mapuches em Metrenco, Araucanía, 1906.Autor desconhecido

Instrumentos musicais

Os relatos antigos descrevem uma música simples, de tom grave e lamentoso, marcada pelo clima duro e pela luta para sobreviver em terras cobertas de neve durante meses. Entre seus instrumentos estão o cultrun, a trutruca, a pifilca, o ñorquin e o quinquercahue ou violino araucano, e vários deles são tocados todos juntos em cerimônias como o nguillatun e o machitun.

Tambores e chocalhos

O cultrun é um tambor de madeira escavada em forma de timbale, coberto com couro de cavalo bem esticado e tocado com uma única baqueta enfeitada com fios coloridos. O caquel cultrum é feito com um tronco oco, a huala é uma cabaça com sementes secas ou pedrinhas, como uma maraca, e as cada cada são grandes conchas que soam ao esfregar suas bordas raiadas.

Trompas e cornetas

A trutruca é uma cana colihue de até quatro metros, partida, escavada e unida de novo com fio de lã e tripa de cavalo, com um chifre de vaca em uma das pontas. Seu som, parecido com o mugido de um touro, representa a força da comunidade; junto com o erke, é um dos dois grandes aerofones do país. O lolquin é parecido, mas muito menor, feito com a haste do cardo troltro; o cullcull, de chifre de boi, dava o alarme em emergências ou na guerra, e o clarín imitou com canas e madeira o clarim trazido pelos espanhóis.

Flautas

A pifilca, de madeira ou osso, é curta, soa como um apito e é levada pendurada no pescoço; hoje é entalhada em peças de 30 a 40 centímetros, com o tubo fechado embaixo, e dá uma única nota que se mistura ao canto. O pinquilhue, de tempos remotos, era uma espécie de flautim feito com o caule do colihue.

Corda

O quinquercahue tinha dois arcos, geralmente de costela, e uma única corda de crina de cavalo. Com a mão esquerda se apoiava um dos arcos contra os dentes de cima e, com a direita, passava-se a corda do outro arco por cima, com um som lamentoso.

Onde conhecer a cultura mapuche 10

Bom saber

We Tripantu

O Ano-Novo mapuche é celebrado no solstício de inverno, no fim de junho. Para os mapuches, coincide com o fim da colheita e o início do plantio.

Festa do Tear

Acontece no fim de cada verão em Cajón Chico, a veranada mapuche de Caviahue, com artesanato, habilidades campeiras e jineteada.

Com respeito

Cerimônias como o nguillatun são sagradas: participe só se a comunidade convidar e peça permissão antes de tirar fotos.

Palavras para aprender

Muitos nomes da Patagônia vêm do mapudungun: Curarrehue, de kura rewe, «altar de pedra»; Peuma Hue, «lugar de sonhos»; Antillanca, «joia do sol».

No Dicionário Mapuche-Espanhol você encontra o significado de muitas palavras em mapudungun.

Fontes: Julio Vezub (2017), «Controversia e identidad mapuche», IPCSH-Conicet; Memoria Chilena: «El pueblo mapuche», «Las poblaciones reche-mapuche» e «Pehuenches y puelches»; fotos antigas: Wikimedia Commons, domínio público.